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sábado, 23 de setembro de 2023

Você sabe a origem da expressão "PT Saudações"?

 Lídia Maria de Melo


Lídia Maria de Melo

Outro dia, em uma rede social, perguntei a meus seguidores se alguém conhecia a expressão "PT Saudações".
Alguns, mais velhos, disseram que sim.
Outros preferiram não arriscar uma resposta.
Pois bem, vamos às explicações.

A expressão surgiu com o telegrama, meio de comunicação inaugurado no Brasil em meados do século 19, após a invenção do telégrafo. Tratava-se de uma forma bem rápida e urgente  de comunicação.
O telégrafo foi criado pelo norte-americano Samuel Finely Breese Morse em 1837. Somente em 1844, ele conseguiu enviar a primeira mensagem à distância. A linguagem usada passou a ser conhecida como Código Morse.
No Brasil, a primeira linha de telégrafo foi instalada na cidade do Rio de Janeiro em 1852, a pedido do imperador D. Pedro II, um entusiasta das novas tecnologias. 
O telegrama passou a ser uma alternativa à carta, que demorava dias para ser entregue.
A linguagem do telegrama era sintética, sem preposições, artigos e pontuação, para reduzir o custo da mensagem, entregue pela Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos.
As letras PT eram a abreviação de ponto (final). Não tinham (nem têm) qualquer ligação com o Partido dos Trabalhadores, que só foi fundado no Brasil em 1980.
A palavra "saudações" era um cumprimento  formal, equivalente a  "um abraço", "passar bem" etc. Com o tempo, "PT Saudações" passou a ser usada com o sentido de despedida.
Às vezes, quando uma conversa ficava alterada, era comum um dos interlocutores encerrar o assunto, usando essa expressão, numa demonstração de contrariedade, ou de desprezo pelo interlocutor. Ao mesmo tempo, encostava o dedo indicador na própria testa e apontava em direção ao outro, como se batesse continência. Depois, dava as costas e ia embora.
Hoje, quem pesquisa telegrama na internet só encontra o aplicativo Telegram, que não é o dos Correios, mas segue o mesmo conceito: mensagem rápida.
Em tempo: os Correios ainda oferecem o serviço de envio de telegramas, que pode ser escrito ou fonado.


sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Polissemia da palavra chocolate


Imagem de Domínio Público - Pixabay 
Lídia Maria de Melo
As palavras podem ser polissêmicas. Ou seja, adquirem sentidos diversos.
Polissemia, na definição do Dicionário Escolar da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, é a multiplicidade de significados para um mesmo significante. 
"Chocolate", por exemplo, é aquele doce em barra ou bombom, feito de cacau, açúcar e baunilha, que dá prazer ao paladar. 
Pode ser também a bebida resultante da mistura de leite e pó de cacau. 
No futebol, quando se diz que um time "toma um chocolate" significa que perdeu de goleada da equipe adversária.
"Chocolate" era também o nome artístico do comediante e compositor Dorival Silva, falecido há 30 anos. 
Dependendo do contexto, a palavra "chocolate" pode ganhar novos sentidos.
Tanto sentidos amargos, quanto obscuros! 

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Conheça o sentido da expressão jurídica "reduzir a termo"

 Lídia Maria de Melo
A linguagem técnica, por vezes, prega uma peça em não iniciados.
Não raro recém-formados de determinadas áreas recebem seus diplomas após quatro, cinco anos de curso, e logo descobrem que desconhecem o significado de alguns vocábulos e de algumas expressões correntes entre profissionais da área.
Um exemplo de expressão que pode deixar recém-formados de cabelo em pé é "reduzir a termo", muito comum na Justiça do Trabalho.
Vejamos os artigos 731 e 786 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), Decreto-Lei nº 5.451, de 1.º de maio de 1943 (que já passou por diversas alterações ao longo dos anos, como as da Reforma Trabalhista, de 2017):

Art. 731 - Aquele que, tendo apresentado ao distribuidor reclamação verbal, não se apresentar, no prazo estabelecido no parágrafo único do art. 786, à Junta ou Juízo para fazê-lo tomar por termo, incorrerá na pena de perda, pelo prazo de 6 (seis) meses, do direito de reclamar perante a Justiça do Trabalho.

 Art. 786 - A reclamação verbal será distribuída antes de sua redução a termo.
Parágrafo único - Distribuída a reclamação verbal, o reclamante deverá, salvo motivo de força maior, apresentar-se no prazo de 5 (cinco) dias, ao cartório ou à secretaria, para reduzi-la a termo, sob a pena estabelecida no art. 731.

No artigo 731, com grifo nosso, aparece "tomar por termo". O caput (cabeça, em latim) do artigo 786 emprega "redução a termo", enquanto, no parágrafo único, usa-se "reduzi-la a termo".
O estudante que não teve a curiosidade de indagar o professor sobre o significado da expressão, ou  ficou inibido, ou ainda não pesquisou um glossário jurídico, tornou-se bacharel em Direito sem ter aprendido (e entendido) algo importante à sua formação.
Pois a expressão indica que o reclamante, ou autor de uma ação trabalhista, após usufruir do direito de registrar sua reclamação oralmente na Justiça do Trabalho, sem ser representado por advogado, deve retornar em cinco dias ao cartório, para ler e assinar a petição inicial redigida por servidores do Setor de Atendimento.
Ou seja, "reduzir a termo" significa que a reclamação oral foi escrita em forma de petição pelos servidores da Justiça do Trabalho, já que o autor não se valeu de um advogado, e posteriormente assinada pelo reclamante.
Nesse caso, reclamante e autor são palavras sinônimas.

SIMPLIFICAÇÃO

Na Lei 9.099, de 26 de setembro de 1995, que dispõe sobre Juizados Especiais Cíveis e Criminais, prevalecem a simplificação e a celeridade no atendimento ao cidadão.
Com base nesses princípios, o artigo 14 dessa lei estabelece que o processo será instaurado por escrito ou oralmente, de forma simples e linguagem acessível (§ 1º.).
O interessado poderá formular pedido oral.
Nesse caso, dispõe o §3º., esse pedido será ''reduzido a escrito" pelos servidores da Secretaria do Juizado. Na prática, estagiários da área de Direito também redigem, sob a supervisão de professores de universidades conveniadas.

Art. 14. [..]
§ 3º O pedido oral será reduzido a escrito pela Secretaria do Juizado, podendo ser utilizado o sistema de fichas ou formulários impressos

Em vez de "reduzido a termo", o texto da Lei dos Juizados Especiais emprega a expressão "reduzido a escrito", que é mais objetiva, simples e adequada à sua filosofia.



domingo, 30 de julho de 2017

Novela de Glória Perez me fez entender o sentido da palavra "pavulagem", citada na canção Uirapuru, de Waldemar Henrique

Lídia Maria de Melo
Durante o curso Primário, equivalente aos quatro primeiros anos do atual Ensino Fundamental, que fiz de 1964 a 1967, aprendi a música "Uirapuru", uma preciosidade do cancioneiro nacional, que só na idade adulta soube ser de autoria do paraense Waldemar Henrique.
Foi composta em 1934 e, embora tenha forma popular, também inspira interpretações eruditas. Há diversos vídeos no Youtube.
A letra de "Uirapuru" narra uma história vivida por um protagonista (o eu-lírico) com um caboclo, durante a travessia a remo de um paraná, ou seja, de um braço de rio.
Além de falar sobre diversos personagens da cultura indígena, o caboclo gabava-se de ter conseguido pegar o uirapuru, um pássaro de canto raro e hipnotizante, que poucos têm a chance de avistar e, muito menos, de tocar. O mistério que envolve o avistamento do uirapuru é tamanho que o pássaro tornou-se alvo de uma ancestral lenda indígena da Amazônia.
Quando me tornei professora, transmiti essa música a meus alunos. Até aprendi a tocá-la no violão.
Foi por intermédio dessa música que soube da existência da palavra "pavulagem".
Curiosamente, apesar de entoá-la por décadas e de ser uma professora de português, além de jornalista, nunca entendi o sentido desse vocábulo na letra. Até cheguei a procurar em dicionários lá pelos anos 1970/1980, mas não encontrei. Depois, nunca mais o assunto se fez necessário.
Neste ano de 2017, com a novela "A Força do Querer", de autoria de Glória Perez e transmitida pela Rede Globo de Televisão para todo o Brasil, costumes e vocabulário do estado do Pará entraram em destaque. Com isso, o sentido da palavra "pavulagem", enfim, se revelou para mim.
No contexto da dramaturgia, as falas das personagens encarregaram-se de me ensinar. Ritinha (interpretada por Isis Valverde), Zeca (Marco Pigossi), Ednalva (Zezé Polessa), Nazaré (Luci Pereira), Abel (Tonico Pereira) e Marilda (Dandara Mariana) não param de empregar pavulagem em suas conversas.
Imediatamente, lembrei da "pavulagem" citada por Waldemar Henrique em sua bela canção e só então compreendi que o caboclo referenciado nela exibia-se e mentia, ao contar que conseguiu pegar o uirapuru.
Nunca é tarde para aprender. A teledramaturgia, ou seja, a telenovela, como toda expressão artística, tem suas funções positivas, apesar de alguns ainda insistirem em dizer o contrário.
Para quem não conhece a música de Waldemar Henrique e quer ouvir, fiz uma gravação minha à capela. Clique no áudio abaixo: 👇

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Jornal Extra inova em recursos linguísticos e gráficos para noticiar eleição de Marcelo Crivella no Rio

Reprodução
Lídia Maria de Melo

Um dia após o segundo turno das eleições municipais, o jornal fluminense Extra circulou com uma primeira página digna de uma aula de análise de discurso.
A capa de 31 de outubro de 2016 do Extra traz sobre um fundo branco, simbolizando a paz, a seguinte manchete de duas linhas, em letras garrafais enlutadas:

             O RIO É
     UNIVERSAL

Fez um trocadilho, jogando com o duplo sentido da palavra "universal", que tanto se refere ao adjetivo que designa o que pertence ao universo inteiro, a todas as pessoas, coisas e lugares, quanto ao substantivo que denomina a igreja neopentecostal criada em 1977 pelo bispo Edir Macedo, um dos maiores desafetos da Rede Globo.
O jornal Extra é do grupo Globo. O senador e bispo Marcelo Crivella, prefeito eleito no segundo turno na cidade do Rio de Janeiro pelo PRB, é considerado o expoente da Universal na política brasileira.
Para complementar o título principal, o jornal usa um subtítulo, em corpo menor, formado por locuções. Em vez de vírgulas para separar essas expressões, emprega cores diversificadas e tamanho variado de letras, num exercício de metalinguagem.

         É DOS GAYS    DO CARNAVAL
         DAS MULHERES   DA DIVERSIDADE
         DA UMBANDA    DOS NEGROS
         DO CRISTO   DA TOLERÂNCIA


Logo abaixo, no lugar de uma única foto em seis colunas, ocupou cada uma das colunas com uma foto vertical distinta, representando em imagem tanto a universalidade da manchete, quanto os segmentos retratados nas locuções do subtítulo.
A primeira fotografia mostra o Cristo Redentor, símbolo máximo do Rio e das religiões cristãs. A única divergência é que os evangélicos, grupo no qual se incluem os integrantes da Universal, não aceitam o uso de imagens para representar santos ou mesmo o filho de Deus. Da memória da televisão brasileira e dos católicos, ainda não se apagou a cena de um bispo chutando a imagem de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, em um programa na TV Record, controlada pela Universal.
A segunda foto expõe uma mulher de bustiê, com a frase "Ventre Livre" grafada em seu corpo, numa referência à aprovação do aborto.
A terceira exibe o desfile de uma escola de samba no Carnaval da Marquês de Sapucaí.
A quarta retrata uma mulher com trajes de mãe de santo em uma praia, como se levasse oferendas a Iemanjá.
A quinta é uma fotografia da parada gay, com uma grande bandeira do Movimento LGBT.
A sexta traz uma mulher negra diante do Monumento a Zumbi dos Palmares, na Praça Onze, no centro do Rio.
Abaixo dessas fotografias, em vez de um título convencional, o Extra apelou para um recurso da publicidade, a função apelativa, ou conativa, da linguagem, grafando cada palavra com uma cor diferente: vermelha, amarela, verde e azul. Como se conversasse com o recém-eleito, que prometeu cuidar das pessoas cariocas, usou este título de quatro colunas em duas linhas:

AGORA, É CONTIGO,
                  CRIVELLA 

Abaixo dessas fotografias, o jornal publica, em quatro colunas, uma foto de Marcelo Crivella, comemorando a vitória nos braços dos correligionários na noite de domingo, na sede do Bangu Atlético Clube, após a confirmação de sua vitória para comandar a Prefeitura do Rio de Janeiro, por quatro anos, a partir de 2017, em substituição a Eduardo Paes (PMDB).
Nas colunas à direita e à esquerda dessa foto. o Extra dá informações sobre a eleição de Crivella e sobre seu novo secretariado, que tem entre os nomes cotados: Índio, Osório e Bolsonaro.
A capa recebeu elogios e críticas dos leitores do diário.
Por meio dos recursos gráficos e linguísticos de que se valeu para compor essa primeira página, a edição evidenciou a opinião do jornal sobre a eleição do senador pastor e os desafios que ele terá que enfrentar em função de suas convicções religiosas e diante da diversidade existente na Cidade Maravilhosa.

(Publicado originalmente no Blog da Lídia Maria de Melo)

     

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Metalinguagem e intertextualidade em ação policial contra atores

Lídia Maria de Melo

Uma trupe teatral, formada por jovens artistas, apresentava-se na tarde de domingo na Praça dos Andradas, em Santos, bem diante da Oficina Cultural Pagu, antiga Cadeia Velha.
A peça ironizava policiais. Não sei muito sobre o enredo. O que vi foi por meio de um vídeo, que mostrava a atuação dos atores e a plateia, formada por poucos jovens, sentada no chão.
Pouco tempo depois, vários policiais militares se aproximaram e partiram para cima de todos. Um deles arrancou o celular da mão de uma garota que estava filmando. Levei um susto, porque a cena me remeteu aos anos de ditadura.
Após alguma resistência, aqueles vários PMs levaram um dos artistas algemado no camburão.
Indispensável dizer que o fato virou notícia e angariou muitos protestos pelas redes sociais.
Antes de seguirmos com essa história, devemos fazer uma reflexão linguística.
Sem intenção, os policiais acabaram dando um exemplo de metalinguagem¹. Ou seja, puseram em prática exatamente o que a peça criticava. A ficção tornou-se real diante dos olhos da assistência.
(Veja mais explicações sobre  o assunto no final do texto).
Repercussão
Nas redes sociais, nem todos os comentários sobre a ação dos policiais foram favoráveis aos artistas.
Entre os desfavoráveis, estavam os que questionaram a qualidade da peça.
Nesse momento, não pude ficar calada. O que menos me importa é a qualidade da montagem.
Diante do que está gravado em vídeo, o que não se deve é desviar o foco da questão.
O que entra em jogo é a violação das garantias constitucionais.
Nós não podemos voltar para um tempo em que a censura prevalecia sobre toda e qualquer manifestação crítica, sobre as artes de maneira geral, e os teatros eram invadidos, com a consequente prisão dos atores.
Não queremos ver repetidos esses fatos de triste memória.
Por isso, é bom que reflitamos sobre o respeito e a consolidação da democracia em nosso País.
Uma boa forma de começar é recorrendo à literatura.
Então, selecionei três manifestações literárias contra esse tipo de ação repressora, porque os textos logo me vieram à mente, assim que soube do ocorrido.
As três obras são marcadas pela intertextualidade ² (conceito cunhado por Júlia Kristeva, nos anos 1969) ou pelo dialogismo³ (conceito usado por Mikhail Bakhtin  no início do século XX). 
Após os poemas, apresento as definições dessas teorias. Agora, vamos à leitura.

De Martin Niemöller (pastor luterano, símbolo da resistência aos nazistas): 
"Sermão"  (1933)

"Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei. No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. No quarto dia, vieram e me levaram; já não havia mais ninguém para reclamar".
.....................................................................................................
De Bertold Brecht: "Intertexto" (início do século XX)

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.
..................................................................................................
De Eduardo Alves da Costa: "No caminho com Maiakóvski" (década de 1960)

[...] Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
[...]".

>>>>>>>>>>>
Notas de rodapé:

¹ Metalinguagem. Ocorre quando o emissor da mensagem explica um código, usando o próprio código. Por exemplo, a peça interrompida na Praça dos Andradas falava sobre a ação policial, quando os policias reais apareceram e agiram com truculência. A ação deles explicou a própria ação criticada na peça. Se uma poesia discorrer sobre poesia, se uma música falar sobre música, quando o dicionário usa palavras para explicar o sentido das palavras, nisso tudo se usa a função metalinguística da linguagem, ou seja, é metalinguagem. Segundo Roman Jakobson, a linguagem pode assumir seis funções. Além da metalinguagem, as demais funções da linguagem são: emotiva, conativa, referencial, fática e poética. 

² Intertextualidade. Define a criação de um texto a partir de um outro texto já existente. A obras intertextuais incluem, por exemplo, paródia, citação, alusão, referência, paráfrase e pastiche. Pode ocorrer em várias áreas do conhecimento. Seu entendimento dependerá da bagagem cultural do receptor. 
 

³ 
Dialogismo. Define o processo que Mikhail Bakhtin chamou de interação entre textos, um diálogo textual, uma polifonia.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Tire as dúvidas sobre a existência do verbo medalhar

O velocista jamaicano Usain Bolt medalhou
três vezes na Olimpíada do Rio.
Foto de Fernando Frazão/Agência Brasil - 15/8/2016
Lídia Maria de Melo

Durante a Olimpíada do Rio, comentaristas de emissoras de televisão utilizaram com frequência o verbo "medalhar", para noticiar que algum atleta conquistou um lugar no pódio durante a competição que reuniu 11.303 desportistas de 206 países.
Não demorou para que, nas redes sociais, internautas criticassem o uso desse verbo, sob a alegação de que se trata de um neologismo desnecessário.
Quando se tem dúvida a respeito de uma palavra, a primeira atitude que se deve ter é pesquisar em um dicionário.
Se a palavra estiver registrada como verbete, isso significa que já houve tantas ocorrências a ponto de os lexicógrafos não terem dúvida em oficializar sua existência.
O registro em dicionário, porém, não é o ato que garante a validade de um vocábulo.
A criação de um termo na língua portuguesa é da competência dos usuários do idioma. Ou seja, quem cria palavras são os falantes da língua. Todas as pessoas podem fazer isso, sem que precisem conhecer teoria linguística ou gramatical. Basta que respeitem, mesmo intuitivamente, a estrutura do idioma.
No processo de criação de um verbo, por exemplo, junta-se a raiz de uma palavra às terminações verbais -ar, -er, -or, -ir. Esse procedimento é que permitiu que o compositor e cantor Djavan, na música "Sina", emplacasse o verbo "caetanear", em homenagem ao também compositor e cantor Caetano Veloso. Apenas não será possível a invenção de uma conjugação, como -ur, por exemplo.
A língua é dinâmica, e os verbos são uma lista aberta. Podem surgir a partir das necessidades dos falantes do idioma.
Foi por uma necessidade histórica que a humanidade inventou palavras para designar o pouso do homem na Lua, em julho de 1969. Em Português, por analogia com o verbo "aterrissar", criou-se  "alunissar".
O surgimento de novos termos foi o tema de minha pesquisa para a dissertação de Mestrado, defendida na Universidade de São Paulo (USP), de 1998 a 2001. Minha pesquisa foi desenvolvida em torno da influência dos jornais no processo de formação e disseminação de novas palavras na língua portuguesa.  Pesquisei seis jornais em dois momentos diferentes. 
Quanto ao verbo "medalhar", além de existir nos comentários dos jornalistas esportivos, está registrado no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) da Academia Brasileira de Letras e em dicionários, como Houaiss e Aurélio.
Mesmo que não fosse digno de um verbete nos dicionários, sua existência estaria consagrada pelos usuários do idioma.
Então, agora você já sabe, "medalhar", no sentido que os comentaristas usaram na Olimpíada do Rio, quer dizer "ganhar medalha".

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Você sabe o que é "cutruvia" e " catraia"?

Lídia Maria de Melo

Quando alguém me pede o sinônimo de uma palavra, invariavelmente pergunto: "Qual é a frase?".
A pergunta tem fundamento. Uma palavra fora do contexto pode concentrar diversos sentidos (polissemia), ou não ter sentido algum.
O contexto é um conjunto de circunstâncias que ajudam na compreensão de uma mensagem. A partir dele, um fato ou um vocábulo adquire significado.
Na novela Velho Chico, escrita por Benedito Ruy Barbosa, Edmara Barbosa e Bruno Luperi,  e apresentada na Rede Globo às 21 horas, a personagem Luzia costuma usar as palavras "catraia" e cutruvia".
Pelo contexto em que são empregados, não há dúvidas de que a mulher de Santo dos Anjos atribui aos dois termos uma carga semântica bastante ofensiva.

Catraia no Porto de Santos
Catraias atracadas na Bacia do Mercado, em Santos. 
À esquerda, o canal sob o  Porto. Abaixo, catraia.
Desde criança conheço a palavra "catraia". Trata-se de um barco, com um motor, tripulado por uma pessoa, o catraieiro.
Na travessia entre Santos e o distrito de Vicente de Carvalho, em Guarujá, a catraia transporta 25 passageiros sentados, além do catraieiro. Em Santos, o embarque (e desembarque) é feito na Bacia do Mercado.
A catraia segue por um canal, sob o cais do Porto, até alcançar o Canal do Estuário para, após atravessá-lo, atracar em outra estação de embarque e desembarque em Vicente de Carvalho.
Quando a maré está baixa, as catraias chegam a atolar no fundo do canal sob o Porto. Quando está alta, os passageiros precisam se curvar, mesmo sentados, para não baterem a cabeça no teto de concreto. Se a passagem fica inviável, a atracação é feita no cais do Porto mesmo e as catraias não chegam à Bacia do Mercado.
Se duas catraias se encontram em direção contrária dentro do canal sob o Porto, a água muitas vezes respinga nas roupas dos passageiros.
 Devido à concentração de óleo, as manchas se revelam quando os respingos secam. A única forma de retirar esse óleo da roupa é esfregar óleo de cozinha no local, até sumir a mancha. Depois, é só lavar.
Não ando de catraia há muitos anos. Acho que há mais de quatro décadas, mas de vez em quando passo perto da Bacia do Mercado e tudo está como sempre.
Voltando ao sentido da palavra "catraia", o que eu conheço nada tem a ver com o empregado por Luzia, em Velho Chico.
A mulher de Santo dos Anjos utiliza o termo para ofender Maria Tereza de Sá Ribeiro, a antiga e eterna paixão de seu marido. E não se trata de uma invenção semântica da personagem.
O dicionário Aurélio Século XXI (edição de 1999) registra "catraia" com quatro acepções, que são:
  1.  barco de pequeno porte; 
  2.  pequena construção, casinhola; 
  3.  meretriz; 
  4.  meretriz de baixa classe.
O dicionário Míni Houaiss (2008) e o Dicionário da Língua Portuguesa Comentado pelo Professor Pasquale (2009) só admitem "catraia" no sentido de barco pequeno.

Cutruvia
Se "catraia" é reconhecida pelos dicionários, inclusive pelo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), ao menos no sentido de "barco", o mesmo não ocorre com "cutruvia", outro xingamento do repertório de Luzia.
Essa ofensa repetida à exaustão contra Maria Tereza não tem registro no VOLP, nem nos dicionários citados acima.
Segundo o site O Nordeste.com , o Dicionário do Palavrão e Termos Afins, de Mário Souto Maior (2010), registra "cotruvia" (com "o") como prostituta de ínfima classe.
O site Dicionário Informal  apresenta dois conceitos para a palavra:
  1.  Mulher da vida, que se relaciona com homens comprometidos. Meretriz. Amante.
  2.  Pessoa por quem se nutre antipatia. 
Assim, "cutruvia", na linguagem falada, designa prostitutas.
Mesmo que não houvesse registro em nenhum local, seria fácil perceber seu significado. Bastaria prestar atenção à maneira como Luzia se expressa.
O contexto seria suficiente para esclarecer as dúvidas semânticas.


segunda-feira, 11 de julho de 2016

Supressão do "r" final, do verbo no infinitivo, e do "u" final, no pretérito perfeito, altera sentido na escrita

Lídia Maria de Melo

Sabe o que chama minha atenção no diálogo do quadro abaixo? 
Quadro que viralizou em redes sociais.
O autor exclui o "r" final dos verbos no infinitivo.  Em vez de "beber", escreve "bebe", como no presente do indicativo. Em vez de "fumar", grafa "fuma". Em vez de "usar" e "transar", redige "usa" e "transa".
Esta é uma observação que venho fazendo há cerca de dois ou três anos.