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domingo, 3 de dezembro de 2017

Até 1971, a palavra "moça" tinha acento circunflexo, para diferenciar da terceira pessoa do singular do verbo moçar

No dia 3 de dezembro de 1967,  há exatos 50 anos, o cirurgião sul-africano Christiaan Barnard surpreendia o mundo ao realizar,  na Cidade do Cabo, na África do Sul. o primeiro transplante de coração da história da humanidade.
A doadora era uma bancária de 24 anos, que o Jornal da Tarde identificou, na edição do dia seguinte, como Ann Darvall. Em outros veículos, consta Denise Darvall. 
O receptor  era o comerciante Louis Washkansky, cuja idade foi publicada pela imprensa de modo diverso. A informação variou de 53 a 55 anos. Na verdade, nem tão velho assim.
Em São Paulo, a manchete da primeira página do Jornal da Tarde, de 4 de dezembro de 1967, chamou a atenção pelo estilo irreverente: "Coração de môça salva velho".
Não obstante o feito histórico, para este blog, o que merece comentário é o título da reportagem principal. Nele, a palavra "moça" é grafada com acento circunflexo na letra "o". 
De pronto, devemos esclarecer que não há engano nessa grafia.
Até dezembro de 1971, o substantivo "môça" recebia o sinal gráfico, também denominado acento diferencial, para que não fosse confundido com a terceira pessoa do singular do verbo "moçar". Ou seja,
"moça", com pronúncia aberta no "o".

De modo geral, marcavam-se com acento circunflexo o "e" e o "o" tônicos fechados de palavras que possuíam homógrafas com "e" e "o" abertos.
Pelo dicionário Aurélio, "moçar" tem sentido de "tornar moça, meretriz ou prostituta" e "desvirginar"
Com a reforma ortográfica de 1971, os acentos diferenciais foram abolidos, porque os linguistas consideraram que o contexto seria mais eficiente do que o sinal gráfico, para distinguir os sentidos das palavras homógrafas (com a mesma grafia).
Foi assim que "moça", como tantas outras palavras, a partir de então, perdeu o acento circunflexo.  


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quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Completam-se 28 anos da queda do Muro de Berlim.
A concordância verbal está certa?

O blog acaba de receber mais uma pergunta sobre concordância verbal.
O leitor indaga:  _ Está correto o uso do verbo "completar" nesta frase: “Amanhã, completam-se 28 anos da queda do Muro de Berlim.” ? 


Resposta:
Sim, está correto. O verbo que não pode ser flexionado quando se refere a tempo é o "fazer". Portanto, o verbo ficaria na terceira pessoa do singular se a frase fosse esta: "Amanhã, faz (ou fará) 28 anos da queda do Muro de Berlim". 

Então, alguém pode perguntar: Por que o verbo "fazer" fica no singular, enquanto "completar" é usado no plural?
Porque o verbo "fazer", referindo-se a tempo, é impessoal. Não há sujeito na frase da questão. Já o verbo "completar" concorda com o sujeito "28 anos".

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Sem invenção, a palavra é "preconceito"

A palavra "preconceito" significa "julgamento ou opinião concebida previamente; opinião formada sem fundamento justo ou conhecimento suficiente", segundo o Minidicionário Houaiss.
Ou seja, preconceito é conceito prévio. 
Portanto, não há "pré-conceito". A palavra é "preconceito".
Sem invenções. A língua é dinâmica, mas se já existe o termo, por que criar outro igual com o mesmo sentido?

domingo, 30 de julho de 2017

Novela de Glória Perez me fez entender o sentido da palavra "pavulagem", citada na canção Uirapuru, de Waldemar Henrique

Durante o curso Primário, equivalente aos quatro primeiros anos do atual Ensino Fundamental, que fiz de 1964 a 1967, aprendi a música "Uirapuru", uma preciosidade do cancioneiro nacional, que só na idade adulta soube ser de autoria do paraense Waldemar Henrique.
Foi composta em 1934 e, embora tenha forma popular, também inspira interpretações eruditas. Há diversos vídeos no Youtube.
A letra de "Uirapuru" narra uma história vivida por um protagonista (o eu-lírico) com um caboclo, durante a travessia a remo de um paraná, ou seja, de um braço de rio.
Além de falar sobre diversos personagens da cultura indígena, o caboclo gabava-se de ter conseguido pegar o uirapuru, um pássaro de canto raro e hipnotizante, que poucos têm a chance de avistar e, muito menos, de tocar. O mistério que envolve o avistamento do uirapuru é tamanho que o pássaro tornou-se alvo de uma ancestral lenda indígena da Amazônia.
Quando me tornei professora, transmiti essa música a meus alunos. Até aprendi a tocá-la no violão.
Foi por intermédio dessa música que soube da existência da palavra "pavulagem".
Curiosamente, apesar de entoá-la por décadas e de ser uma professora de português, além de jornalista, nunca entendi o sentido desse vocábulo na letra. Até cheguei a procurar em dicionários lá pelos anos 1970/1980, mas não encontrei. Depois, nunca mais o assunto se fez necessário.
Neste ano de 2017, com a novela "A Força do Querer", de autoria de Glória Perez e transmitida pela Rede Globo de Televisão para todo o Brasil, costumes e vocabulário do estado do Pará entraram em destaque. Com isso, o sentido da palavra "pavulagem", enfim, se revelou para mim.
No contexto da dramaturgia, as falas das personagens encarregaram-se de me ensinar. Ritinha (interpretada por Isis Valverde), Zeca (Marco Pigossi), Ednalva (Zezé Polessa), Nazaré (Luci Pereira), Abel (Tonico Pereira) e Marilda (Dandara Mariana) não param de empregar pavulagem em suas conversas.
Imediatamente, lembrei da "pavulagem" citada por Waldemar Henrique em sua bela canção e só então compreendi que o caboclo referenciado nela exibia-se e mentia, ao contar que conseguiu pegar o uirapuru.
Nunca é tarde para aprender. A teledramaturgia, ou seja, a telenovela, como toda expressão artística, tem suas funções positivas, apesar de alguns ainda insistirem em dizer o contrário.
Para quem não conhece a música de Waldemar Henrique e quer ouvir, fiz uma gravação minha à capela. Clique no áudio abaixo: 👇

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

"Entre isso e aquilo" ou "entre isso ou aquilo"?

Outro dia, uma jornalista que foi minha aluna, enviou-me esta pergunta sobre o emprego da preposição "entre":
Professora, escrevi um texto usando ENTRE: "Quem tiver contas a pagar vai ter que escolher entre colocar comida na mesa e honrar os compromissos financeiros."
Aí o editor corrigiu: "Quem tiver contas a pagar vai ter que escolher entre colocar comida na mesa ou honrar os compromissos financeiros".
Fiquei na dúvida! Entre isso e aquilo OU Entre isso ou aquilo?
                                                                 ***
Esclareci a questão com esta resposta:
Uma das acepções da preposição "entre" é "a meio de" (dois espaços, dois tempos, duas situações etc).
Dessa forma, citando um exemplo do dicionarista Antônio Houaiss, podemos dizer: "O livro estava entre a mesa e a estante".  E ainda: "Está em dúvida entre a primavera e o outono".
Com base nesses enunciados, referendados por um dos maiores filólogos brasileiros, podemos concluir que você escreveu corretamente.
Seu editor deve ter se confundido com a expressão "ou isso ou aquilo" (sem "entre"). Utilizando a preposição "entre", o correto é como você usou, ou seja, com a conjunção "e".
Para empregar o "ou", o enunciado deve excluir o "entre". Desta forma : "Quem tiver contas a pagar vai ter que escolher: (DOIS PONTOS) ou colocar comida na mesa, (VÍRGULA) ou honrar os compromissos financeiros".
Reforçando, o correto é "entre isso e aquilo". 
Um abraço.

sábado, 31 de dezembro de 2016

Prefixo pré- exige o emprego do hífen

Uma dúvida atormenta um amigo: - Qual é a forma correta: pré-assar, pré assar ou préassar?
Procura resposta no Dicionário da Academia Brasileira de Letras e não encontra.
Como tinha pressa, optou por escrever "assar previamente".
Foi uma boa solução, mas a dúvida inicial continuou.
Enviou-me uma mensagem por uma rede social, vista por mim somente dois meses depois. 
Tudo bem. Antes tarde do que nunca.
Mandei a ele a explicação. E aproveito para deixar aqui, para acesso livre.
Sempre que o prefixo "pré" (com acento agudo) for utilizado, o hífen será obrigatório. Então, a grafia correta é "pré-assar", "pré-assado".
Meu amigo não conseguiu encontrar no dicionário, porque se trata de uma junção ocasional.
Certamente, ele encontraria "pré-escola", "pré-natal", "pré-nupcial", porque designam, respectivamente, um curso, um tipo de exame para gestante e um tipo de exame para noivos. São palavras de uso frequente.
Se tiver alguma dúvida, envie.



sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Acórdão ou acordão, um acento muda todo o sentido

Uma vírgula pode mudar todo o sentido de uma frase.
Uma campanha publicitária de 2008, em comemoração ao centenário da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), demonstra bem isso.
Um mínimo acento tem o poder de alterar o significado de uma palavra.
Por exemplo, "acórdão" (com a sílaba forte no "cór"), termo assíduo em tribunais e ambiente jurídico em geral, é um substantivo masculino que significa "decisão final proferida sobre um processo por um tribunal superior, que funciona como paradigma para solucionar casos análogos".
Já "acordão" (sem acento gráfico e sílaba tônica no "dão") é o aumentativo do substantivo "acordo", que quer dizer "concordância ou harmonia de pensamento; combinação; deliberação feita em conjunto".
Mais nada me atrevo a dizer.
Porém, tenho pensado bastante com meus botões: qual dos dois substantivos define melhor o que ocorreu no dia 7 de dezembro de 2016 no Brasil?