domingo, 5 de julho de 2020

Cuidado com a pronúncia das palavras "gratuito", "fortuito" e "intuito"

Texto e ilustração: Lídia Maria de Melo

Jornal da maior rede de televisão do Brasil, veiculado à tarde, marcou duas vezes gol contra durante a edição de quarta-feira. Primeiro, uma conhecida repórter de Recife disse, sobre a morte do menino Miguel, que o delegado considerou um acidente “fortuíto”. Erroneamente, pronunciou a palavra como se houvesse um acento no "i". Meu ouvido doeu. Pouquíssimos minutos depois, foi a vez da apresentadora. Sobre a greve de entregadores de diversas empresas que atendem aos clientes por meio de aplicativos, ela disse que algo foi “gratuíto”. Do mesmo modo que a colega da capital de Pernambuco, pronunciou a palavra como se houvesse um acento no "i".
Não! Na escrita, nenhuma das duas palavras tem acento gráfico. Porém, na pronúncia, ambas são acentuadas no “u”. Em termos orais, a forma correta é: “fortUito” e “gratUito”, com pronúncia forte do “u” e não do “i”. As mesmas orientações valem para a palavra "intuito". A pronúncia forte, ou tônica, é no "u" de "intUito". Sem mais.

sábado, 25 de janeiro de 2020

Dicionários e gramática põem fim à polêmica: palavra "presidenta" existe. E a culpa é do português


                                                                                        Lídia Maria de Melo

Foto: reprodução do Dicionário da Academia
Brasileira de Letras 
A internet é uma faca de dois gumes.
Tanto pode propiciar o conhecimento, quanto fomentar a preguiça intelectual.
Se o assunto é língua portuguesa, o simples toque de dedo em uma tela iluminada não substitui a pesquisa mais aprofundada em dicionários e gramáticas formais. Impressos ou digitais.
No fim da tarde de ontem, recebi o pedido de ajuda de um amigo, para  provar que a palavra "presidenta" existe.
Um seguidor de seu perfil em uma rede social insistia com o argumento de que o vocábulo só faz parte de "dicionário petista".
Embora estivesse muito ocupada, não poderia deixar esse equívoco se perpetuar. 
É claro que não tenho o dom de evitar situações dessa natureza, mas sou capaz de indicar autores cuja competência não se discute e que podem colocar um ponto final nesse embate.
Foto: reprodução do Míni Dicionário Houaiss
Ao longo de minha vida, sempre me envolvi com a etimologia das palavras. Tanto como profissional da área de Letras (professora de Português), da área de Comunicação Social (jornalista) e da área de Direito (advogada), que inicio agora, quanto como mestre em Ciências da Comunicação. As palavras vivem a me rodear. Aliás, minha pesquisa de mestrado girou em torno de "nascimento, existência e morte de palavras". Adoro navegar por essas águas.
Para responder à pergunta de meu amigo, preferi não discorrer sobre a "existência" da palavra "presidenta". 
Achei melhor dar voz a quem tem mais gabarito que eu.
Fotografei três dicionários: da Academia Brasileira de Letras, do professor Antônio Houaiss e do professor Aurélio Buarque de Holanda. Também incluí no rol a gramática do professor Evanildo Bechara.
Todos, publicados bem antes de Dilma Rousseff assumir a Presidência da República do Brasil.  
Foto: reprodução do Dicionário Novo Aurélio
Século XXI.
Certas questões não devem ser solucionadas por achismo. Precisam envolver pesquisa.
Cá para nós, foi uma tarefa superfácil. Só precisei abrir os dicionários na letra "P".
Consultar a gramática deu um pouquinho mais de trabalho. Exigiu que eu consultasse o índice.
O que demandou mais tempo foi fotografar as explicações impressas e montar as fotos, para que pudessem caber no espaço designado para os comentários da postagem do meu amigo.  Publico as imagens aqui. Clique nelas, para ampliar.
Foto: reprodução da Moderna Gramática Portuguesa,
de Evanildo Bechara
Não são de boa qualidade, mas permitem a leitura. O ideal mesmo é abrir os livros, folhear e compreender as explicações.
Conhecimento nunca é demais.
A palavra "presidenta" não foi criada pelo PT (Partido dos Trabalhadores). Muito menos por seus integrantes.
Os portugueses talvez sejam os responsáveis.
Quanto ao seguidor de meu amigo, tenho certeza de que entendeu, porém, não quis dar o braço a torcer.
Paciência. Há pessoas que acreditam piamente que a Terra não é redonda! 

domingo, 12 de janeiro de 2020

Repita três vezes, para que jamais se esqueça: "impressionante" é grafada com dois "ss"

Reprodução
Lídia Maria de Melo
Como jornalista, por mais de duas décadas, exerci as funções de repórter e editora em um jornal diário centenário. Uma de minhas colegas de profissão empregava com frequência a palavra "impressionante". Normalmente em tom de reprovação.
Se alguém cometia uma barbaridade textual, ela exclamava mais ou menos assim: "Impressionante como fulano costuma errar a grafia da palavra tal!". Ou ainda: "Beltrano é tão grosseiro! Impressionante!".
Faz tempo que não a vejo, mas posso imaginar a reação que deve ter tido ao saber que o ministro da Educação escreveu a palavra predileta dela, utilizando a letra "c" no lugar de "ss". Sem qualquer ironia, mas com muita indignação, ela deve ter praguejado com um sonoro: "Impressionante!".
De minha parte, concordo plenamente. É um total absurdo! Absurdo triplo, diga-se, pois se trata de reincidência.
Então, ficamos assim: se você alguma vez teve dúvida sobre a grafia da palavra "impressionante", lembre-se, de uma vez por todas, que o correto é usar dois "ss". Jamais, em tempo algum, escreva com "c" de cebola.  

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Polissemia da palavra chocolate


Imagem de Domínio Público - Pixabay 
Lídia Maria de Melo
As palavras podem ser polissêmicas. Ou seja, adquirem sentidos diversos.
Polissemia, na definição do Dicionário Escolar da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, é a multiplicidade de significados para um mesmo significante. 
"Chocolate", por exemplo, é aquele doce em barra ou bombom, feito de cacau, açúcar e baunilha, que dá prazer ao paladar. 
Pode ser também a bebida resultante da mistura de leite e pó de cacau. 
No futebol, quando se diz que um time "toma um chocolate" significa que perdeu de goleada da equipe adversária.
"Chocolate" era também o nome artístico do comediante e compositor Dorival Silva, falecido há 30 anos. 
Dependendo do contexto, a palavra "chocolate" pode ganhar novos sentidos.
Tanto sentidos amargos, quanto obscuros! 

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Juge, conge ou conje e coisa e tal. Curiosidades linguísticas em dia ruim para a Operação Lava Jato.

Imagem de pixel2013 - por Pixabay
Lídia Maria de Melo
Só uma curiosidade linguística, neste dia cheio de denúncias de conversas secretas travadas por integrantes da Operação Lava Jato.
Em francês, a palavra "juiz" é "juge" (/jige/). 

Em português, pessoa ligada a outra por vínculo conjugal é "cônjuge".
Já em "morês", essa pessoa é "conge", ou "conje". 

Como se trata de um neologismo criado por redução, a consagração pelo uso é que definirá se a grafia adequada é com "j" ou "g". Aguardemos os próximos capítulos.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Conheça o sentido da expressão jurídica "reduzir a termo"

 Lídia Maria de Melo
A linguagem técnica, por vezes, prega uma peça em não iniciados.
Não raro recém-formados de determinadas áreas recebem seus diplomas após quatro, cinco anos de curso, e logo descobrem que desconhecem o significado de alguns vocábulos e de algumas expressões correntes entre profissionais da área.
Um exemplo de expressão que pode deixar recém-formados de cabelo em pé é "reduzir a termo", muito comum na Justiça do Trabalho.
Vejamos os artigos 731 e 786 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), Decreto-Lei nº 5.451, de 1.º de maio de 1943 (que já passou por diversas alterações ao longo dos anos, como as da Reforma Trabalhista, de 2017):

Art. 731 - Aquele que, tendo apresentado ao distribuidor reclamação verbal, não se apresentar, no prazo estabelecido no parágrafo único do art. 786, à Junta ou Juízo para fazê-lo tomar por termo, incorrerá na pena de perda, pelo prazo de 6 (seis) meses, do direito de reclamar perante a Justiça do Trabalho.

 Art. 786 - A reclamação verbal será distribuída antes de sua redução a termo.
Parágrafo único - Distribuída a reclamação verbal, o reclamante deverá, salvo motivo de força maior, apresentar-se no prazo de 5 (cinco) dias, ao cartório ou à secretaria, para reduzi-la a termo, sob a pena estabelecida no art. 731.

No artigo 731, com grifo nosso, aparece "tomar por termo". O caput (cabeça, em latim) do artigo 786 emprega "redução a termo", enquanto, no parágrafo único, usa-se "reduzi-la a termo".
O estudante que não teve a curiosidade de indagar o professor sobre o significado da expressão, ou  ficou inibido, ou ainda não pesquisou um glossário jurídico, tornou-se bacharel em Direito sem ter aprendido (e entendido) algo importante à sua formação.
Pois a expressão indica que o reclamante, ou autor de uma ação trabalhista, após usufruir do direito de registrar sua reclamação oralmente na Justiça do Trabalho, sem ser representado por advogado, deve retornar em cinco dias ao cartório, para ler e assinar a petição inicial redigida por servidores do Setor de Atendimento.
Ou seja, "reduzir a termo" significa que a reclamação oral foi escrita em forma de petição pelos servidores da Justiça do Trabalho, já que o autor não se valeu de um advogado, e posteriormente assinada pelo reclamante.
Nesse caso, reclamante e autor são palavras sinônimas.

SIMPLIFICAÇÃO

Na Lei 9.099, de 26 de setembro de 1995, que dispõe sobre Juizados Especiais Cíveis e Criminais, prevalecem a simplificação e a celeridade no atendimento ao cidadão.
Com base nesses princípios, o artigo 14 dessa lei estabelece que o processo será instaurado por escrito ou oralmente, de forma simples e linguagem acessível (§ 1º.).
O interessado poderá formular pedido oral.
Nesse caso, dispõe o §3º., esse pedido será ''reduzido a escrito" pelos servidores da Secretaria do Juizado. Na prática, estagiários da área de Direito também redigem, sob a supervisão de professores de universidades conveniadas.

Art. 14. [..]
§ 3º O pedido oral será reduzido a escrito pela Secretaria do Juizado, podendo ser utilizado o sistema de fichas ou formulários impressos

Em vez de "reduzido a termo", o texto da Lei dos Juizados Especiais emprega a expressão "reduzido a escrito", que é mais objetiva, simples e adequada à sua filosofia.